#12: A deficiência e o “mau karma”

 

A deficiência e o mau karma

Era uma idosa de aproximadamente 65 anos, olhava-me com olhar espantado e curioso e um leve sorriso no rosto. Como fora nosso primeiro contato visual, espantei-me com o olhar. Retribuí-lhe o sorriso como que por educação, mas sua curiosidade logo transformou-se em palavras. As palavras transbordaram de seus lábios questionando-me: “só isso?”.

Agora o espanto se tornara claro para mim. Era realmente estranho ver um homem como eu levantando por trás da cabeça um peso mínimo de 1kg. Afinal, estávamos na academia e era lógico que eu deveria estar brincando com ela, óbvio que eu conseguia mais. Depois de tentar com 3kg e com 2kg, pra mim estava mais do que claro que não daria para mais do que 1kg. Respondi a ela: “é o que consigo.”. Não satisfeita, perguntou ao instrutor e só ficou tranquila quando o instrutor respondeu: “ele tem uma debilidade e atrofia no braço esquerdo, não consegue mais do que isso”. Ela um pouco sem graça, pediu-me desculpas.

Mas foi-se o tempo em que eu me importara com isso. De fato, a atrofia no braço, a deformidade no cotovelo e a limitação de rotação no ante-braço já foram grandes fantasmas em minha vida. Nunca me considerei uma pessoa com deficiencia, mas analisando hoje, foi isso que me tornara há muitos anos.

Hoje o modo como encaro minha pequena deficiência é com bastante serenidade e segurança, mas já fui o mestre no disfarce. Tentava disfarçar a todo custo a presença inevitável dela em minha vida. Mas será que essa minha debilidade foi um mau karma?

Karma é um conceito da Filosofia Hindu que significa ação. Seria como a ação da natureza que corrige uma ação humana fora do Dharma (Lei Natural). Então o Karma é uma lei que complementa o Dharma. Como uma espécie de multa de trânsito. Um pagamento a uma falha nossa. Algo para nos orientar frente ao correto.

Já analisando isso, entendemos que o chamado “mau karma”, ou seja, ajustes que recebemos para o caminho correto da vida, são na verdade somente karma, não necessariamente bom nem mau. Será que o chamado bom Karma é de fato tão bom quanto pensamos?

Vamos refletir… O que seria um bom karma em relação a recursos financeiros? Ah Yang, claro que é ter uma vida com muitos recursos financeiros desde o nascimento. Será? Não necessariamente. Muitas vezes o karma de nascer com muito dinheiro pode não ser nada bom. Você tem que lidar desde cedo com a inveja de outras pessoas, com a dúvida sobre o interesse ou a verdadeira amizade, com o fato de não saber o valor da conquista, de viver à sombra da riqueza da família.

Será que buscar sua liberdade financeira através de muita dedicação e esforço não seria o melhor karma financeiro que poderíamos ter? O mesmo podemos dizer em relação a qualquer outro “bom karma”. Creio que não é o karma, ou seja as condições, que importa, mas o que fazemos do karma que recebemos.

Em relação à deficiência, tenho grandes exemplos em minha vida que corroboram a ideia exposta. O primeiro é de uma grande mulher chamada Ninfa Cunha. Cadeirante, diabética e com sérios problemas reumáticos ela trabalha, é artista e ativista social. Hoje é diretora de um teatro em Salvador.

Hélio Alves, o segundo exemplo, um homem que desde a infância tornou-se tetraplégico, mas que mesmo assim conseguiu fazer, sem recursos financeiros e sem conhecimento técnico, o único quadricíclo bimotor para cadeirantes no mundo. Isso mesmo! Ele construiu, contando somente com a simples ajuda de um irmão, um veículo que chega a atingir até 80km/h, permitindo que ele, em cima de sua cadeira, se desloque entre o distrito que ele mora e a cidade de Campo Formoso, no interior da Bahia.

Um pouco menos próximos a mim, mas ainda assim grandes exemplos: Léo Olímpico e Fernando Fernandes, homens que tinham uma vida um pouco vazia e que transformaram isso numa vida com propósito (como o querido Kiko da Euzaria costuma dizer). Então, esse “mau karma” de terem sofrido um acidente no auge de sua vida fez com que eles se tornassem atletas e pessoas que transmitem não mais inveja, mas inspiração aos outros.

Afinal, muito pior que a deficiência física é a deficiência de caráter. Esta é como o diabetes, doença invisivel que causa cegueira e até a morte.

Muitas vezes ocorrem fatos em nossa vida que atribuímos ao mau karma e costumamos nos queixar em vez de construir algo novo e melhor com o que nos é dado.

Um antigo filósofo romano chamado Epíteto dizia que a verdadeira escravidão é tentar mudar o que não temos controle ou se conformar com aquilo que podemos mudar. Ou seja, aconteceu contigo, reflita: posso mudar isso? Caso negativo, aceitar fazer do limão a limonada é sempre uma opção mais saborosa e mais generosa.

E caso faça a limonada, me convide. Adoro beber o delicioso gosto da superação.

Deixe uma resposta