#11: Domingos: entre o porquê e o para quê

Domingos – Entre o porquê e o para quê

Há dois homens que são considerados os maiores psicólogos de todos os tempos: Sigmund Freud e Carl G. Jung. O primeiro, Freud, criador da psicanálise, é o responsável por desenvolver um método de cura baseado na escuta e investigação das causas do problema, entendendo a origem do mesmo conseguimos resolvê-lo e seguir em frente. Já Jung teve como foco procurar descobrir o que o fato/problema apresentado está querendo nos dizer para que possamos evoluir.

Resumindo, Freud queria saber o “porquê” e Jung o “para quê”. Há muitas outras diferenças entre os dois, mas me retenho a esta para o texto. A cura de Freud através do “porquê” nos faz entender causa e acomodar nossas angústias o “para quê” de Jung nos estimula a pensar em nossa evolução e que tudo que nos passa é para nos empurrar de alguma forma para esse crescimento psicológico e espiritual.

Domingos Montagner faleceu no último dia 15 de uma maneira que chocou muitas pessoas. Por que no auge de sua carreira? Por que com a audiência de uma colega de trabalho? Por que no rio que ele tanto admirava? Por que ele tão forte não conseguiu escapar e ela sim? Por que deixando 3 filhos e esposa? Os porquês não param… e não tem fim. Digo mais, não tem finalística alguma.

Deixo de lado o grande Freud e chamo o magnífico Jung e pergunto “para quê?”. O para quê me impulsiona para o “e eu com isso?” Ou seja, como isso me afeta e pode me aperfeiçoar? Quais lições esse triste episódio pode me trazer rumo à minha inexorável, mas não tão ligeira, evolução enquanto Ser?

Para quê um ser humano no auge da sua carreira morre? Cada um que lê esse texto tem sua resposta. A minha poderia ser: E há momento melhor para deixar a vida que no auge da sua realização? Por acaso, não é assim que a fruta cai do pé, melhor dizendo, morre para a vida na árvore? Doce, cheia de energia vital, madura. Talvez este seja exatamente o melhor momento para deixar a vida carnal e entregar-se à terra ou ao rio para renovar o ciclo natural. Simplesmente não sabemos.

Outro ensinamento possível remete-me a um legado da cultura marcial dos Samurais, que ao iniciar de seu dia se questionavam: Será que hoje é um bom dia para morrer? No fundo dessa questão está uma outra pergunta: se eu morrer hoje deixarei algum “débito” ou este é um dia em que posso ir tranquilo?

Isso nos impulsiona a um novo olhar sobre a finitude da vida, não deixar nada além de saudade. Nenhuma raiva, mágoa, questão mal resolvida, sonho não realizado, perdão não pedido… nenhuma dívida psicológica é permitida nesse contexto. Esse novo olhar nos faz viver como se fosse o último dia, buscando colher o melhor desse dia: carpe diem.

Cabe a cada um de nós o questionamento do para quê Domingos morreu desse jeito. Para olharmos com mais carinho para o rio? Para alertar a centenas de pessoas anônimas sobre os riscos do rio? Pessoas essas que poderiam ter o mesmo fim que ele, assim como centenas de outros anônimos já tiveram? Para nos dar repugnância à nossa condição bestial, humanóide, pois percebemos que mesmo num momento de luto surgem piadas infames… Resgatando, essa repugnância, algo de grande valor em nós: a pureza perdida?

Esse é o sentido do para quê: nos catalisar para o melhor de nós. Cada um viveu essa notícia de uma maneira, mas a melhor forma de viver a dor é aprender com ela. Realmente não é fácil aprender com a dor, mas é acima de tudo, necessário.

Camila deve se perguntar: para que fui  testemunha e sobrevivente dessa tragédia? E não o porquê.

Os amigos devem se perguntar: para que eu perdi uma pessoa tão boa na minha vida?

A família precisa se perguntar: para que perdemos marido e pai tão amado e carinhoso? E assim a perda pode se transformar, não sem luta, em ganho finalmente.

Perder e ganhar é sempre uma sala de espelhos que se altera de acordo com a perspectiva, assim como vida e morte. Os bebês choram no nascimento por causa da perda da vida intrauterina, mas logo aprendem a gostar da vida fora da barriga da mãe. Talvez, enquanto choramos a morte de Domingos o mesmo comemora por ter tido a oportunidade de viver uma outra experiência sem o peso da matéria a carregar.

Não sei você, mas creio que tudo que me passa, por mais duro que seja, é um contributo para minha evolução e, se assim creio, assim será.

Obrigado Domingos por me permitir evoluir com sua despedida desse mundo.

Que você, fruto maduro nessa vida, possa deixar mais doce e encantador o mundo do invisível.

E que possamos acordar para a Vida através de sua despedida. Afinal, como disse o mestre Jung “Não há despertar de consciência sem dor”.

Deixe uma resposta