#13: Pretty Pussy Generation

Pretty Pussy Generation.

Inicialmente peço perdão pelo título ofensivo, mas há uma semana procuro outro e não encontrei. A solução que achei foi a de substituir o título em português para o equivalente em inglês, tirando-o assim, parcialmente, do título do artigo e trazendo-o para dentro do texto. E para explicitar a você que ficou curioso, significa: Geração Vulva Bonita.

Então, vamos falar de como surgiu a ideia do tema…

Como se fora mais uma notícia, aquela se despencava em minha frente, mas dessa vez eu fui tragado pela mesma com tanta ênfase que não consegui escapar. A manchete da matéria dizia: “Brasil lidera ranking mundial de cirurgias íntimas, em 2015 foram 12.870 cirurgias de cunho estético, feitas por mulheres no país.”
É importante refletir sobre isso, pois como disse Cornelius Castoriadis “O que está errado com a sociedade em que vivemos é que ela deixou de se questionar”. Que país é esse? O país recordista em cirurgias plásticas e um dos mais desiguais do mundo.

A rede social que mais cresceu nos últimos anos no Brasil foi o Instagram, a rede social da imagem, que tem entre as pessoas com mais seguidores os chamados “modelos-fitness”. Olha, não vejo problema nenhum em cuidar do corpo, querer ter um corpo mais belo e mais saudável. A questão é, qual o limite? Qual o preço da estética em sua vida? Lembre-se: para cada escolha, uma renúncia.

Então, nos questionemos sobre o absurdo narcisista que é uma cirurgia estética feita no órgão genital feminino. Repito: estética. Mais chocante é ver que os sites “especializados” trazem a ideia de “trauma das mulheres que tem que conviver com isso”. Será que nos rebaixamos tanto que nem nos tocamos?

Para ser um trauma entendo por associação lógica que a função estética da vulva para a mulher nunca deve ter sido tão valorizada como agora. Mas porque a mulher precisa ter uma “vulva bonita”? Aliás, como ou quem avalia a beleza disso? E mesmo que avaliasse, qual a importância dessa beleza para nós enquanto seres humanos? O que isso irá nos elevar espiritualmente?

Aproveito para, como homem, dar uma dica às mulheres. Provavelmente, desde o início desse texto você pode ter se questionado se tem beleza ou não em seu órgão sexual, ou talvez tenha se instigado para ler artigos e ver imagens sobre essa tal “bela vulva”. A dica é, poupe seu tempo e sua energia, pois se o seu parceiro estiver mais preocupado com a beleza de sua vulva do que com o prazer que vocês podem sentir juntos no sexo… Creio que seja hora de você se preocupar com o tipo de parceiro que você tem.

Melhor, se seu parceiro coloca a sua beleza de corpo que, por ser matéria é totalmente mutável e deteriorável, acima de sua beleza de alma, talvez seu parceiro não seja nenhuma beleza.

Após a leitura da citada matéria refleti comigo mesmo.. “Há limites ainda não atingíveis do narcisismo?” Talvez o embelezamento do canal da uretra… Sei lá o que falta, mas como dizem: “o problema do fundo do poço é descobrir que o poço não tem fundo”.

Atualmente, como sacramentou Zygmunt Bauman “somos talvez mais predispostos à crítica, que nossos ancestrais em sua vida cotidiana, mas nossa crítica é, por assim dizer, desdentada”. Espero que esta minha crítica não seja desdentada nem venha a contribuir para o aumento desse tipo de cirurgias, como citei a possibilidade disso no texto “Só estou compartilhando”.

Espero, outrossim, que possamos trazer isso para nossa vida. Esse é meu objetivo. O intuito que tenho não é criticar as coitadas das pessoas que, enfeitiçadas pelo canto da sereia da beleza a qualquer custo e ao limite extremo, fizeram a tal cirurgia. Mas quero trazer para minha e para sua vida uma reflexão sobre a escravidão estética que cai sobre nós.
Quando escrevi “que país é esse?” no início do texto me lembrei imediatamente de Renato Russo. Talvez você também tenha se lembrado. Lá nos idos dos anos 80, Renato criticava severamente a geração dele chamando-a de geração coca-cola.

Se ele ainda estivesse vivo, eu diria para ele:

“Olha, Renato, talvez você ainda não soubesse naquela época, mas o poço… O poço não tem fundo.”

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