Você não precisa ser feliz

A meta humana não é a felicidade

A busca da felicidade nos impulsiona a ações em troca de uma rápida recompensa.

A meta humana é a Realização. Realizar-se no seu devir, vir a ser, cumprir a sua “vida não-vivida”, sua Vocação, seu propósito, sua Obra.

Acho difícil que Jesus, Sócrates, Irmã Dulce, Buda… tenham sido felizes. Creio que eles não exaltariam sua “felicidade” nas redes sociais, pois a felicidade deles não era mensurada pela imagem, mas interno, eterno e essencial, que como Saint-Exupéry falou “é invisível aos olhos”. Mas sem dúvidas eles foram Realizados. E talvez possamos chamar a Realização de “felicidade da Alma”.

A Realização é a meta humana e aí temos um grande problema filosófico: ninguém pode definir a minha Realização, ou como os gregos entendiam minha vocação da alma (do latim Vocatio, chamado). Sua alma tem algo que somente ela pode contribuir neste contexto exato que você vive. Sendo mulher ou homem, morando na cidade que você mora, tendo vivido nas décadas em que você vive, tendo nascido na família que você nasceu. Ou seja, respeitando suas condições kármicas.

Para a Realização, precisamos antes de tudo nos conhecermos profundamente. Mas hoje é mais fácil conhecer a vida dos outros do que a nossa. Quanto tempo você medita, ora, reflete profundamente por dia? E quanto tempo você acessa as redes sociais para saber sobre a vida de outros (a vida visível e divulgável para que seja invejável, diga-se de passagem)? Quanto tempo foca naquilo que é a sua Obra aqui nesse plano e quanto tempo age somente por dinheiro, trabalhando com algo que não completa sua Obra nesse plano?

Como disse Nietzsche

“É mais fácil obedecer ao outro do que dirigir a si mesmo”

E esse outro às vezes é uma parte de nós mesmos, a parte que busca prazeres imediatos, instantâneos e mesquinhos em detrimento das nossas mais nobres ações em busca da Realização.

As pessoas em busca da Realização nem sempre são felizes, ao menos no conceito atual de felicidade (satisfação imediata e apego às coisas e pessoas). Na verdade, buscar a Realização humana é entender, também, que ela é incompleta enquanto outros seres humanos sofrem demasiadamente.

Eu posso ser extremamente feliz se fizer parte de uma das 62 famílias no mundo que detêm 50% da riqueza mundial, mas nunca seria Realizado, pois a Realização me impulsiona a ser um eterno buscador de melhoria humana para todos.

E como poderia ser realizado sabendo que a riqueza que tenho, que tem o poder de salvar muitas vidas e que é muito mais do que preciso não está sendo utilizada para ajudar outras pessoas? Todo ser-humano em busca da Realização tem um saber comum: “Somos um!”

Como li outro dia:

“Mestre, como devemos tratar os outros?Não existem outros

Jesus sabiamente revelou a mesma mensagem da seguinte maneira:

“assim como querem que os homens façam a vocês, façam do mesmo modo a eles.” (LUC 6:31)

Se todos somos um, devemos tratar o outro como se não houvesse outro, como se fôssemos ele. Quanta sabedoria! Não somente em palavras, mas principalmente em ação.

Buscar a felicidade é agir por prazer, buscar a Realização é agir por dever. E não um dever imposto por família, sociedade, governo… Um dever da alma. Muitos dos grandes homens e mulheres na história da humanidade romperam padrões e foram, algumas vezes, infratores de leis e regras sociais.

Trago aqui o dever para com seu Ser, sua mais profunda Realidade. Aquilo que em ti já era quando você nasceu e que permanecerá quando seu corpo chegar ao fim.

Esse dever da alma, que os Hindus chamavam de Dharma, leva a um tipo específico de ação, a Reta-ação (agir por dever, sem apego ao fruto).

Quantas ações do seu dia são guiadas por sua alma? Quantas são pelo seu corpo e desejos de felicidade? Tenho um verdadeiro pânico só de pensar nisso, pois fico quase depressivo com o resultado da minha conta comparativa.

Não é à toa que os mestres falavam: “a noite escura para um ignorante é dia claro para um sábio”, pois o foco dos pensamentos, sentimentos e ações dos grandes sábios da humanidade sempre foi diametralmente oposto ao da quase totalidade das pessoas.

Não é fácil, mas é o necessário. Fazer o que se deve fazer, sem busca de recompensa. Ação pelo dever. Repito: não é fácil. Mas quem disse que o fácil é o bom?

In Aspera Veritas, como diziam os Estóicos, que significa “no difícil está a verdade”.

O problema é que a gente pode passar a vida toda dançando a música errada.

Até quando esqueceremos o motivo de estarmos aqui e nos distrairemos no parque de diversões da vida?

Não tem problema andar de roda gigante de vez em quando. Mas que você lá de cima aviste uma pessoa caída no chão e possa, na primeira descida, pedir ao maquinista que pare. Desça, ajude a pessoa e que você possa se sentir Realizado por ter ajudado um irmão (sem nome, sem religião, sem sexo…), um simples humano. Sentir-se Realizado, mesmo perdendo a felicidade momentânea. Ajudar não para ouvir um efusivo “muito obrigado”, mas porque era, é e sempre será sua obrigação.

Então, vamos continuar buscando incessantemente a felicidade ou nos dedicaremos à busca da Vocação para a Realização da nossa Obra?

Vamos descer dessa roda gigante e ajudar os caídos? Sei que eu e você podemos ser mais.

Torna-te quem tu és

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