TRUMP, KÉFERA, KALIL E A MODERNIDADE LÍQUIDA

Qual a relação entre eles?

Vou começar por Kéfera. Não conhecia essa “Diva” infanto-juvenil até o lançamento recente de seu filme. Assisti uma matéria na TV e fiquei chocado com a gritaria das centenas de jovens assediando-a no cinema. Parecia até imagem de um show dos Beatles…

Logo acessei seu canal no Youtube para entender de quem se tratava. Assisti um ou dois vídeos em que imediatamente percebi que ela não tinha nada demais a não ser a extrema naturalidade ao falar de temas que são tabu, principalmente para a mulher. Só para exemplificar, num dos vídeos ela começa a coçar os seios e fala “minha teta tá coçando”. Vale ressaltar que o vídeo é editado e que poderia ter sido cortada essa parte. Mas para que cortar se é exatamente essa parte, falando de maneira “espontânea” e sem medo do que vão achar, que te dará popularidade?

Kalil se elegeu em BH sem apoio de figurões e com uma visão de que quanto mais fosse ele próprio e menos um político mais conseguiria votos. O slogan era “chega de político”. Falar o que pensa, eis o segredo. A mentalidade “foda-se” ganhou da mentalidade do “politicamente correto”. A mentalidade “foda-se” diz: “se você não concorda, problema seu, não farei nada para te agradar”, e isso tem agradado e muito.

Assim, agora vemos Trump se eleger, mesmo sem apoio de líderes do Partido Republicano. Ligando o “foda-se” e Falando coisas que arrepiam algumas pessoas de pavor, mas que arrepiam outras pessoas de alegria pela liberdade de ver alguém falar algumas coisas que elas tanto queriam falar e foram reprimidas por uma “democratura opinativa”.

O problema da liberdade de expressão é que ela só é ampla quando Trump e Bolsonaro podem falar com a mesma liberdade que Bernie Sanders e Jean Wyllys. As pessoas que tem alguns pensamentos mais à direita tem se encontrado cerceadas por opiniões contra o casamento gay ou as cotas, por exemplo, e tem sido taxadas de fascistas simplesmente por discordarem do senso comum (que talvez não seja tão comum assim, vide as eleições).

A liberdade de expressão tão cantada por alguns está muito enviesada. “Você é livre para falar o que pensa, contanto que fale de maneira ‘libertária’. Nada de ser conservador ou retrógrado, pois isso é fascismo, amigo…” Poucos querem ser reconhecidos como fascistas, mas muitos pensam de maneira diferente do esperado e escondem suas opiniões para não serem taxados como fascistas/machistas/racistas/homofóbicos…

O que acontece é que hoje em dia falar o que muitos tem tido que esconder pode gerar seguidores. Mais do que seguidores, torcedores de estádio. Muitos queriam que Hillary ganhasse, mas entre querer que e lutar para há uma grande distância. Os “torcedores” estavam do lado de Trump, esse tinha além de eleitores pessoas que lutavam por sua eleição. Isso faz diferença.

A relação entre os três personagens do título tem a ver com o conceito de Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman, em que ele afirma que as instituições morreram e os indivíduos passam a ser protagonistas da cena social.

A instituição família se derrete e por isso a menina desbocada faz sucesso na internet. A instituição partido político se derrete e por isso: o não-político se elege no primeiro turno em São Paulo, dois partidos pequenos disputam segundo turno no Rio, Kalil vence em BH e Trump (sem apoio de líderes) vira presidente dos EUA. O indivíduo supera as instituições.

Essa mudança de rumo, tanto no Brasil, como nos EUA é comum se entendemos o conceito de enantiodromia. Esse é um termo do filósofo grego Heráclito que diz que uma grande força em uma direção gera uma força no sentido oposto. A vida é feita de ciclos e essa mesma força que trouxe Obama e trouxe Lula é a mesma que impulsiona Trump e Bolsonaro. Yang, você quer dizer que isso é bom ou ruim? Não quero dizer nada além de reconhecer a sabedoria de Heráclito e ver que é, realmente, assim.

Para finalizar quero somente lembrar que democracia significa governo da maioria, não necessariamente as melhores escolhas ou as mais justas. Justiça e democracia nem sempre estão juntas. Bem comum e democracia nem sempre estão juntos. Isso não significa que devemos satanizar a democracia, mas muito menos que a romantizemos ou a santifiquemos como a solução de todos os problemas.

Democracia é quantidade e não há relação nenhuma entre quantidade e qualidade. As mesmas podem estar juntas ou separadas sem relação causal entre uma e outra.

Essa é a verdade sobre a democracia: ela pode se virar contra os que lutaram por ela. E como diz Hebert Sebastian Agar: “A verdade que torna os homens livres é, na maioria dos casos, a verdade que os homens preferem não ouvir”.

E como democracia é a liberdade para escolher seus líderes, fecho com uma reflexão de Bauman sobre liberdade:

A liberdade é uma benção ou uma maldição? Uma maldição disfarçada de benção, ou uma benção temida como maldição?

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1 comentário em “#17: Trump, Kéfera, Kalil e a Modernidade Líquida

  1. Maria clara nov 11, 2016

    Muito bom texto!
    As pessoas estão com sede de verdade.
    O teatro que a grande maioria vive e que na verdade é a tônica da sociedade, não convence, exatamente por isso.
    É uma palhaçada. E, quando alguém quebra a regra e diz escancaradamente o que pensa, essa atitude liberta um monte de gente que queria dizer exatamente aquilo, mas é cerceado pelo modelo de moral e ética que norteia a maioria.

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